O MEU DIA DE PRINCESA - Andreia Silva



            Finalmente o dia chegou. É hoje! É hoje! Hoje finalmente vou conhecer uma boate por dentro. Estava meio louquinha de vontade de ir a em um show naquele lugar. Eu estava muito eufórica, ir pela primeira vez em um show, em uma boate/danceteria chamada Metro Night Club.
            Meus amigos diziam: você é maluca, esse lugar é o pior inferninho que tem, na verdade, eu estava pra lá de feliz que não dei muita bola para o que eles disseram. Eu ia, quem sabe, conhecer o único pagodeiro que eu gostava até então, o Netinho de Paula, ou o meu negão. Quem sabe ele gostasse de mim, ele poderia até me chamar pra fazer um dia de princesa no seu programa Domingo da Gente.
            Para ir nesse show, eu me vi obrigada a não ir pra escola, para o meu supletivo. Mas, naquele momento eu não estava me importando muito com isso, tudo o que eu queria saber era sobre aquele show. Eu ficava imaginando o que aconteceria, como ia ser, será que eu conseguiria chegar perto dele?
            Conforme o tempo ia passando, eu ia ficando mais nervosa e só me importava com que roupa eu usaria, se eu ia trocar o brinco, usar brinco grande ou pequeno. Eu sabia que tinha que levar papel e caneta caso chegasse perto do Netinho, não poderia deixar de pedir um autógrafo como todo fã que se preza. Por que fã que é fã pede autógrafo do seu ídolo.
            A medida em que à tarde ia acabando, o horário do show começou se aproximando. Eu ia ficando mais nervosa. Dentro do meu estômago, parecia que havia milhares de borboletas abrindo e fechando rapidamente para impedir que o alimento chegasse até ele. Eu não conseguia comer nada de tão nervosa que estava.
            Finalmente à noite chegou. Entrei no Corsa e saímos rumo à danceteria. Chegando lá, me deparei com uma porta imensa e um segurança me desejando Boa Noite e me perguntando pra qual pista nós íamos.
            Nesse momento, minha mãe falou que tinha falado com o dono da casa, que traria uma cadeirante para ver o show do pagodeiro Netinho de Paula. Aquele homem de quase dois metros de altura e um e meio de largura, disse: só estante, senhora, eu vou verificar. Poucos minutos depois chega uma moça e disse: Podem me acompanhar, vamos colocar você em um camarote!
            Naquela altura eu já não acreditava no que estava acontecendo. Eu estava em uma danceteria. Igual minha irmã eu em um camarote, não era real, parecia realmente um sonho. Quando estava a caminho do camarote, me deparei com uma pista xadrez, com quadrados preto e branco, fumaça, muita fumaça, um globo girando. Dava a impressão que a pista estava cheia, nem era tanto assim mas, para mim, era tudo mágico.
            Quando estávamos quase chegando, um segurança pediu para nos acompanhar até o camarote. Subimos e ficamos ao aguardo do início do show. No palco, enquanto Netinho não entrava, subia uma banda de pagode, para fazer a abertura. O nome do grupo que dava início ao show era “Coisa Boa”, que, de boa, na verdade só tinha o nome. A essas alturas isso já não me importava, eu só queria que começasse logo show principal.
            Na porta do camarote, aquele segurança de quase dois metros de altura e um e meio de largura, estava lá, pra não deixar que ninguém invadisse e pra que eu pudesse ver o show tranquilamente. Eu estava maravilhada com toda aquela fumaça, barulho, gente dançando lá embaixo. A minha vontade de sair dançando também, mas, claro que não poderia, então dançava em minha imaginação.
            De repente, naquele lugar, eu ouço uma voz conhecida e falo pra minha mãe  “Conheço essa voz. Tenho certeza que é do Ney Rosa”. Minha mãe olha e pergunta “Tem certeza, menina? Estamos no escuro, como você pode ter certeza?”. Eu respondi a ela que ouvia aquela voz todos os domingos de manhã, no Programa Chora Cavaco.
            De repente, a esposa do locutor se vira pra olhar em minha direção e diz “Locutor, a menina te reconheceu no escuro, vai lá conversar com ela”. Nesse momento, um dos meus sonhos começava a se realizar, eu conhecia um locutor, que eu ouvia há anos no rádio, para mim  o sonho só estava começando. Eu tinha medo de acordar e descobrir que não passava de um sonho, que nada daquilo estava acontecendo.
            Aquela fumaça, de leve, dava a impressão de que realmente era um sonho e que a qualquer momento eu poderia acordar. Eu só pensando comigo, eu preciso que alguém me belisque para eu saber se isso é real ou não. De repente, o locutor se vira e me cumprimenta, pergunta como estou. Eu estava meio nervosa, com as mãos suando, tremendo mais que vara verde em dia de vento, eu disse ao locutor que estava bem, e deu um sorriso meio tímido. Naquele momento eu sabia que eu estava sabendo como um bambu se sentia em dia de vento, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá.
            O locutor chama as meninas que ganharam a promoção da rádio, para irem ao camarim do Netinho. Naquele momento, eu olhei para a minha mãe e disse “Queria que fosse eu, mas não, não sou eu, eu nunca ganho nada nisso”. O segurança que estava na porta do camarote pergunta para a minha mãe o que foi, o que estava acontecendo. Minha mãe se vira pra ele e fala que queria que fosse eu, disse que eu queria tanto conhecer o Netinho.
            Ele se comoveu com a nossa situação, e conversando com outro segurança, ele subiu rapidamente as escadas e foi falar com o organizador do show e com o dono da casa. Em cinco minutos vem uma Tropa de segurança dizendo “Nós vamos levá-la até o Netinho. Caralho, eu não acredito que é verdade”. Rapidamente aquele homem de 1,5 metro de altura e um e meio de largura me pega no colo, e minha mãe vai correndo atrás com minha cadeira de rodas.
            Para chegar ao camarim de Netinho, eu teria que passar em frente ao palco, e agora temos que esperar até que a banda que tá tocando termine de tocar, e eu não podia passar pelo palco, então, foi como um saco de arroz, fiquei passando de mão em mão.
            Finalmente vi a porta do camarim e minha cadeira novamente. O segurança pessoal do pagodeiro me pede pra esperar porque ele está atendendo à imprensa. Claro que eu esperaria, quem esperou até agora a pouco, esperar uns minutos a mais não ia fazer diferença naquele momento. Minhas pernas tremiam, eu não estava acreditando que tudo aquilo era verdade.
De repente a porta se abriu e o segurança me empurrou para dentro, para que ninguém mais passasse na minha frente. Quando dei de cara com o meu negão, não segurei as lágrimas, uma leve chuva se formou no meu rosto. Ele me disse “Princesa, não chora. Não aguento ver mulher chorando” e me deu um forte abraço. Aquele momento eu jamais vou esquecer.
Aquele homem grande, usava uma blusa branca, eu nunca tinha visto até então alguém tão bonito vestido branco. Minha mãe disse a ele “Netinho, eu não aguento mais, chamo três, quatro vezes e ela fica lá rindo e querendo ser sua princesa”. Ele se foi. Eu estava tremendo ainda, estava com papel e caneta na mão, mas esqueci de pedir para ele me autografar, porém, naquelas alturas, eu não queria saber de mais nada, o sonho tinha sido realizado. Desci do camarim e foi curtir o show, que terminou lá pelas três da manhã.
            Na casa noturna eu ainda vi coisas inéditas, que até então eu nunca tinha visto aqui na cidade, como mulher se beijando, a maior população de negros que já tinha visto na minha vida juntos. Cheguei em casa às 4h20 da manhã, aproximadamente, morrendo de fome, cansada, mas feliz demais. Enfim tive o quase tão sonhado “dia de princesa”, mas, agora tenho que comer ou será que não ia direto dormir, afinal de contas tinha aula, tinha que levantar cedo porque tinha aula às 8 horas.

            Deitei na cama e não dormi nem 6 horas, me levantei, me arrumei e quinze pras oito cheguei no local da aula. Meu professor pergunta que cara essa Déia, cara de quem passou a noite na gandaia, risos. Você não está enganado, passei mesmo a noite acordada, fui no show do Netinho de Paula. O professor olha pra mim e diz “você é maluca, ir lá para aquele lugar e ainda vir para a aula, você está parecendo um zumbi” e assim virei um dia inteiro sem dormir só fui dormir às 20 horas daquele sábado.

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